Acesso Negado
Olhou o relógio, 21:45. O pátio do posto de gasolina, com o sorridente tigre da Esso acenando um bem vindo, emanava um peculiar cheiro de combustível, churrasco e cerveja. Uma fragrância única, diferente, mágica até. Típico de pisciano. Ou então, efeito da maresia, aquela vontade de rir…
Rajadas de vento balançavam seus cabelos, o que o fez prender as madeixas num rabo de cavalo. Antes de entrar na lanchonete do posto, tirou o maço de Marlboro da jaqueta surrada e acendeu um cigarro, lutando contra o vento que insistia em apagar a fraca chama.
Sono chegando, a cabeça pesando do cansaço. Mas antes de encontrar um lugar para dormir, o forasteiro queria uma cerveja para relaxar. Ou ficar ligado de vez.
-Vê uma gelada aí, colega!
O colega era o magrelo atrás do balcão, com um pano de prato encardido no ombro e uma camisa do Santos sobre o peito. O cabelinho melado e bem penteado lhe dava um ar nostálgico, um quê de Noel Rosa. As poucas palavras, a melancolia nos olhos, não restava dúvida: Noel vive. E é balconista do posto Tigrão – viajou, antes mesmo de beber.
Enquanto a cerveja gelada suava o copo americano, a lanchonete era uma caixa de ressonância babilônica, misturando os berros das conversas dos caminhoneiros, o som alto da TV durante o Jornal Nacional e os acordes de Fio de Cabelo, que explodia nos auto-falantes da jukebox. Mesmo com os versos agudos e estridentes, algo chamou sua atenção no pátio: uma cadência forte, uma outra música, um universo diferente daquela confusão em três tons. Rehab.
Entre o noticiário, o papo dos caminhoneiros e o sofrimento de Chitão e Xororó, ele preferiu pegar a cerveja e sentar lá fora, mais perto da Amy. Sim, lá estava bem mais interessante. Ao lado de um Mercedez, um grupo de cinco garotas, dessas bem “cidade grande”, das que se vê aos montes em shoppings e baladas nas capitais. Entre elas, uma em destaque. Ela. The fucking one. E a maresia se tornou mais forte. Outras músicas, mais cervejas, entre outras coisas. Quando deu por si, estavam a sós no pátio. Subitamente, o silêncio e a solitude. Então, ela foi em direção a uma porta. Sobre ela, um letreiro de neon onde se lia Hotel Califórnia. Sob o efeito do álcool e do desejo, sentiu que estava entre a cruz e a espada. Mas, em caso de inferno, dançaria com o diabo. Decidido, foi até ao balcão daquela recepção escura. E vazia. Algo o atraiu, a sua esquerda: uma luz fraca. Era a moça, a musa do olhar intrigante, o mistério naquele par de olhos verdes. Em suas mãos, uma lamparina. Acenou delicadamente com a cabeça, indicando o caminho a seguir. Ao passar pelo corredor, pôde ouvir um grupo cantando, insano e desafinado, uma canção do Eagles.
Mais alguns passos. A porta do quarto 43 está entreaberta. Se aproximou com receio, entrando lentamente no quarto. Na cama, ela. Nua e lânguida, se oferece e se entrega, sem medos, pudores ou receios. Satisfaz todos os desejos, sem medo de coisa alguma. Exausta, cai no sono, dormindo com um sorriso estampado na cara. Sonhando, sussurra que ele é lindo, entre outras coisas sem sentido.
- Dancem, meus lindos. Dancem no jardim, nas noites mágicas de verão. Celebrem. Recordem. Esqueçam.
No meio da noite, ele acordou. Vestiu seu jeans, apenas. Deixou o quarto 43 descalço e sem camisa, o peito suado e a alma leve. Olhou para ela mais uma vez antes de fechar a porta. Queria ar puro, um cigarro e outra cerveja. Ao chegar no lado de fora, a surpresa: nada mais havia lá. Nem posto, nem lanchonete. Nem cheiros peculiares, nem tigres sorridentes. Só uma casinha abandonada, mais retirada, onde ainda se conseguia ler, numa placa corroída pela ferrugem:
Estação Imperial – desativada em 1969.
Como se fosse um sonho – e ele soubesse disso – resolveu voltar para o quarto. Ao cruzar novamente o corredor, ainda ouviu as vozes, ainda que distantes, cantando aquela velha canção.
Na cama, ainda dormindo, ainda sonhando, sua Godiva murmurava coisas, como num transe.
- Somos prisioneiros aqui, querido. Prisioneiros do desejo, detidos por nossa própria conta. Livre arbítrio, nossa escolha. Esse é o preço, bebê.
No outro quarto, soluços, gemidos e desespero. Queriam ir embora, se livrar da culpa, matar seus demônios, agora despertos, mais vivos que nunca. Mas por mais que cravassem seus punhais na fera, a cada estocada ela se fortalecia.
A última coisa que ele disse se lembrar foi que estava saindo, a procura do posto, da moto, da sua vida antes de entrar no Hotel Califórnia. Mas um porteiro, sorridente e prestativo, o advertiu:
- Relaxe, senhor. Não há como ir embora. Pode usar todos os nossos quartos, usufruir de tudo que nosso adorável hotel oferece. Sou treinado para recebê-lo. Pode fazer o check-out, senhor.
Mas jamais poderá partir.
Agora, ele vive os dias assim, sentado, balançando o tronco para frente e para trás, enquanto murmura, como os olhos perdidos no horizonte:
Welcome to the Hotel Califórnia….
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