Acesso Negado
11:23
Depois de um reencontro cheio de saudade, caminhamos sobre os escombros da escola. As carteiras escolares formavam pilhas, que cediam com o nosso peso. Mesmo assim não desistimos. Tínhamos um compromisso inadiável.
00:37
Tinha algo dentro daquele cofre. A dúvida era: pra quem? Poderia ser pra mim. Ou pro cara que dividia a casa comigo. Quando fiquei sozinho, apareceu um amigo e me contou a combinação:633. Então abrimos o cofre, que estava cheio de balas e material escolar.
3:43
No começo do fim, foram 3 trombas d’água. Aquele furacão gigante, agitando o mar, lindo e assustador. Imagina só 3 ao mesmo tempo. Foi em Camboriú, mas poderia ter sido em Bombinhas, Itapema ou Jurerê. Morreram 300. A gente nem se deu conta, ficou vendo tudo da garagem enquanto dava risada e ouvia R.E.M. Depois ficou tudo bem. Como tinha de ser.
4:39
Era um fim de tarde, na praia. O sol tinha ido embora quando saí pra comprar cerveja, a galera estava na areia, batendo papo. Quando voltei, apesar de ter mais gente que antes, apenas uma pessoa do nosso grupo tinha ficado. Ela me olhou nos olhos e perguntou:
- O que é assíduo?
Respondi que era algo constante, presente, pontual, tipo um cara que não falta ao trabalho.
- Sinônimo de intenso?
- É, pode ser. Algo intenso.
-Então quero que seja meu amigo assiduamente.
Eu a abracei e caímos na areia. Quando ela se entregou no abraço, eu senti seu perfume. Com sua cabeça em meu ombro, desligado de tudo que acontecia ao nosso redor, cantarolei baixinho uma velha canção do Queen:
oh you make me live
E então os créditos subiram.
Ainda lembro bem dela. Na noite em que a conheci, havia recebido uma ação de despejo. Em meio a várias pessoas que tinham chego para beber naquela noite de sábado, ela me olhou e disse:
- Você vai salvar minha noite.
Então vieram outras noites. Eu gostava de observar cada trejeito daquela branquinha, o sotaque carregado, os olhinhos fechados ao sorrir, o sorriso delicioso. Ficava bebendo cerveja e curtindo com ela o torpor, aquela sensação gostosa onde se fala muito, tem ideias mirabolantes, derruba governos, escala times e arruma a economia numa tacada só.
E ela gostava de coxinha. Comer coxinha com uma média na padaria. Um verdadeiro ritual: cravar os dentes no salgado, sentir a crocância, mastigar devagar, sentindo os grãos da camada de massa frita sendo rasgada pelos dentes. Sentir os fios de carne de frango temperada com salsinha, pimenta e cominho na língua. Saborear todos os ingredientes, sentir cada gosto, de olhos fechados e sorriso nos lábios. Depois beber café, alisando a xícara com o indicador, como se acariciasse, como se aquela refeição frugal fosse seu amante de R$5,50.
Eu apenas observava, como um vouyer que se satisfaz em apenas ver. Como um adolescente devorando uma Playboy no banheiro, ou um cachorro em frente a uma assadeira de frangos. Sim, ela foi minha por um tempo. Mas naquele instante, naquela hora mágica da manhã, ela se entregava inteira a uma fritura regada por café com leite.
Hoje eu a encontro nas músicas, nos filmes, nos livros que me deu e em perfumes que cheiro sem querer pelas calçadas movimentadas. E nos balcões, nas moças comendo coxinhas, distraídas e apressadas. Mas essas não cerram os olhos nem se molham de desejo por um amante barato de R$5,50.
Meu nome é Kasmagoff. Meu nome agora é esse. Eu escolhi. Antes de morrer, meu nome era Setúbal. Coisa do meu pai, escolheu para homenagear o goleiro do time da cidade em que ele nasceu, nem lembro mais o nome.
Setúbal da Silva. Agora, Kasmagoff. Apenas Kasmagoff.Com dois éfes. Minha escolha teve influência da histórias de horror que li quando criança. Contos da Cripta, Um Passo Além, uma tinha o Bóris Karloff na capa. Karloff+Gosma=Kasmagoff.
Era fascinado pelas histórias de assombração. Voltar ao mundo dos vivos para assombrar com feição horrível e voz gutural me deixava arrepiado, adrenalina total.
Então morri, atropelado pela Brasília da pamonha. Passo meus dias eternos e cheios de tédio arrepiando gatos e jogando paciência com meus vizinhos de tumba.
Só que hoje é dia 2 de novembro e os sacanas não me acordaram. Descolaram um frila no Beto Carrero, num desses castelos de horror. Foi o cemitério em peso, menos eu, que não estava no Canadá, mas perdi o portal das 3:43. Agora tenho que aturar esse cheiro de vela, essa gente pisando no meu teto, essa gritaria de vendedor ambulante e criança ranhenta.
Mas o Perebinha tá fodido. Era pra me chamar, mas nem. Vou encher a cova dele de flor. É que ele tinha rinite alérgica. Só de olhar pra casa cheia de florzinhas repletas de pólen, capaz de morrer de novo.
Olhou o relógio, 21:45. O pátio do posto de gasolina, com o sorridente tigre da Esso acenando um bem vindo, emanava um peculiar cheiro de combustível, churrasco e cerveja. Uma fragrância única, diferente, mágica até. Típico de pisciano. Ou então, efeito da maresia, aquela vontade de rir…
Rajadas de vento balançavam seus cabelos, o que o fez prender as madeixas num rabo de cavalo. Antes de entrar na lanchonete do posto, tirou o maço de Marlboro da jaqueta surrada e acendeu um cigarro, lutando contra o vento que insistia em apagar a fraca chama.
Sono chegando, a cabeça pesando do cansaço. Mas antes de encontrar um lugar para dormir, o forasteiro queria uma cerveja para relaxar. Ou ficar ligado de vez.
-Vê uma gelada aí, colega!
O colega era o magrelo atrás do balcão, com um pano de prato encardido no ombro e uma camisa do Santos sobre o peito. O cabelinho melado e bem penteado lhe dava um ar nostálgico, um quê de Noel Rosa. As poucas palavras, a melancolia nos olhos, não restava dúvida: Noel vive. E é balconista do posto Tigrão – viajou, antes mesmo de beber.
Enquanto a cerveja gelada suava o copo americano, a lanchonete era uma caixa de ressonância babilônica, misturando os berros das conversas dos caminhoneiros, o som alto da TV durante o Jornal Nacional e os acordes de Fio de Cabelo, que explodia nos auto-falantes da jukebox. Mesmo com os versos agudos e estridentes, algo chamou sua atenção no pátio: uma cadência forte, uma outra música, um universo diferente daquela confusão em três tons. Rehab.
Entre o noticiário, o papo dos caminhoneiros e o sofrimento de Chitão e Xororó, ele preferiu pegar a cerveja e sentar lá fora, mais perto da Amy. Sim, lá estava bem mais interessante. Ao lado de um Mercedez, um grupo de cinco garotas, dessas bem “cidade grande”, das que se vê aos montes em shoppings e baladas nas capitais. Entre elas, uma em destaque. Ela. The fucking one. E a maresia se tornou mais forte. Outras músicas, mais cervejas, entre outras coisas. Quando deu por si, estavam a sós no pátio. Subitamente, o silêncio e a solitude. Então, ela foi em direção a uma porta. Sobre ela, um letreiro de neon onde se lia Hotel Califórnia. Sob o efeito do álcool e do desejo, sentiu que estava entre a cruz e a espada. Mas, em caso de inferno, dançaria com o diabo. Decidido, foi até ao balcão daquela recepção escura. E vazia. Algo o atraiu, a sua esquerda: uma luz fraca. Era a moça, a musa do olhar intrigante, o mistério naquele par de olhos verdes. Em suas mãos, uma lamparina. Acenou delicadamente com a cabeça, indicando o caminho a seguir. Ao passar pelo corredor, pôde ouvir um grupo cantando, insano e desafinado, uma canção do Eagles.
Mais alguns passos. A porta do quarto 43 está entreaberta. Se aproximou com receio, entrando lentamente no quarto. Na cama, ela. Nua e lânguida, se oferece e se entrega, sem medos, pudores ou receios. Satisfaz todos os desejos, sem medo de coisa alguma. Exausta, cai no sono, dormindo com um sorriso estampado na cara. Sonhando, sussurra que ele é lindo, entre outras coisas sem sentido.
- Dancem, meus lindos. Dancem no jardim, nas noites mágicas de verão. Celebrem. Recordem. Esqueçam.
No meio da noite, ele acordou. Vestiu seu jeans, apenas. Deixou o quarto 43 descalço e sem camisa, o peito suado e a alma leve. Olhou para ela mais uma vez antes de fechar a porta. Queria ar puro, um cigarro e outra cerveja. Ao chegar no lado de fora, a surpresa: nada mais havia lá. Nem posto, nem lanchonete. Nem cheiros peculiares, nem tigres sorridentes. Só uma casinha abandonada, mais retirada, onde ainda se conseguia ler, numa placa corroída pela ferrugem:
Estação Imperial – desativada em 1969.
Como se fosse um sonho – e ele soubesse disso – resolveu voltar para o quarto. Ao cruzar novamente o corredor, ainda ouviu as vozes, ainda que distantes, cantando aquela velha canção.
Na cama, ainda dormindo, ainda sonhando, sua Godiva murmurava coisas, como num transe.
- Somos prisioneiros aqui, querido. Prisioneiros do desejo, detidos por nossa própria conta. Livre arbítrio, nossa escolha. Esse é o preço, bebê.
No outro quarto, soluços, gemidos e desespero. Queriam ir embora, se livrar da culpa, matar seus demônios, agora despertos, mais vivos que nunca. Mas por mais que cravassem seus punhais na fera, a cada estocada ela se fortalecia.
A última coisa que ele disse se lembrar foi que estava saindo, a procura do posto, da moto, da sua vida antes de entrar no Hotel Califórnia. Mas um porteiro, sorridente e prestativo, o advertiu:
- Relaxe, senhor. Não há como ir embora. Pode usar todos os nossos quartos, usufruir de tudo que nosso adorável hotel oferece. Sou treinado para recebê-lo. Pode fazer o check-out, senhor.
Mas jamais poderá partir.
Agora, ele vive os dias assim, sentado, balançando o tronco para frente e para trás, enquanto murmura, como os olhos perdidos no horizonte:
Welcome to the Hotel Califórnia….
Os dias estavam contados. Em breve, deixaria aquele lugar que foi seu abrigo por tanto tempo. Uma pequena sala, com formato fora do convencional, cinco paredes erguidas na arquitetura da gambiarra. Um pequeno barraco de compensado no último andar do casarão imponente.
O local foi concebido pelo caos desde sua construção. Caixas espalhadas, vários livros, certificados nas paredes, fios pelo chão. Ainda assim, havia ordem no caos. Eles se entendiam, o homem e a bagunça.
Mas chegou o momento de ir. Em breve, deixaria aquele lugar tão cheio de recordações. Que aos poucos ia se esvaindo, a medida que as caixas se enchiam com seus pertences. As fotos, os cartões, as coisas por todos os lugates. Os cartazes, que teimavam em permanecer pendurados, arrancando a tinta da parede quando puxados. O chão sujo das camadas secas de tinta. E a parede revelando outras cores, outros tons de outros tempos. Estava amarela, como já fora rosa e verde um dia. Agora era um mosaico estranho, sem identidade, sem definição.
Ele não veria a nova demão de tinta, como não vira alguém que o visitara em sua ausência. Ela não deixou recado. Apenas parou em frente a porta, olhando melancólica para as paredes descascadas. Saiu apressada, com os olhos vermelhos.
Talvez fosse da poeira da sala.
Feliz com o lançamento da antologia Vidraça com Bafo, que faz parte do projeto Cadernos de Autoria, do Sesc.
Faço parte dessa antologia com dois contos de minha autoria e participação em um outro conto, escrito coletivamente.
A todos que curtem meus contos e sempre me incentivaram, o meu muito obrigado por mais essa conquista. =)
Pequenas porções de ilusão descendo pela garganta. Goles e mais goles, a língua presa, a cabeça solta. Divagações, teses sendo defendidas com muita convicção, timidez se escondendo na penumbra do bar. E a verdade saindo, a mais pura verdade, entre gargalhadas, exclamações e certezas. Ou incertezas
Mais uma dose, mais do mesmo, quem sabe um novo porre. Não me importo, pois o espelho me diz que sou o melhor, o mais belo, o cara que faz a diferença. In vino veritas. Mas é verdade o que espelho me conta quando estou confortavelmente entorpecido?
E mais uma torre. Mais copos, mais certezas, mais reflexões. Então surge a raiva pelo tempo perdido, pelo que podia ser mas não foi. E os olhos ficam marejados. E na quinta mijada o espelho mostra que o charme se foi. E você vê uma caricatura ridícula, um arremedo, uma cópia mal feita e bêbada de você.
And I have become comfortably numb.
Todos aos dias, a mesma rotina, buscar a noiva às 21 horas. O percurso era pequeno, mas um saco, sem algo para distrair. O rádio era a companhia perfeita. Notícias, música, um comentarista falando da bolsa de valores, alguém reclamando do governo, outro se esgoelando ao narrar um lance de um jogo de futebol. Ou apenas música, a doce música, que quebrava um pouco a solidão. O ritual se repetia: freio de mão, ignição, botão do rádio. Embreagem, primeira engatada, sintonia no dial, acelerar. Estática. Chiados. Naquela noite, sabe-se lá a razão, o rádio estava na banda AM, de qualidade de som sofrível e programação de gosto duvidoso, salvando-se apenas pelo lado jornalístico. Mas variar é preciso, vamos dar uma chance ao AM. Estranho, difícil de sintonizar algo além de ruídos e chiados. Um tal de zzzzzz…ommmmmm…tsssssss…Alguns metros rodados, uma voz sai dos auto-falantes. Um pastor a berrar no microfone. Podia até imaginar a cara de pavor do sonoplasta no estúdio. Pastor Fernandes (esse era seu nome) berrava, socava a mesa ou seja lá o que servisse de base para o microfone, que a essa altura deveria estar coberto de saliva do “emissário de Deus”, segundo a vinheta do programa.
Era pra ser risível, mas deu medo. Numa rua escura, meio deserta, com um pastor perturbado gritando em seu ouvido? Mais um pouco, deixava o carro ali e ia embora correndo. Mas lembrou do botão, ah , o mágico botão da sintonia. Num simples giro, o pastor foi embora com sua cólera santa. Um pouco de estática, mas uma giradinha. Uma melodia. Ufa, música, enfim. Um arranjo meloso, música romântica. “Eba, faz tempo que não ouço Phil Collins”,. Tava tudo indo muito bem até o cantante berrar a primeira frase: “Eu não vou deixar você fugir assim da minha viiiidaaaaaaaa… Credo! Chama o pastor! Breganejo aqui não! Por um momento pensou estar em outra dimensão, feito uma personagem da série Além da Imaginação. Até olhou pelo retrovisor para ver se não havia um duende no banco de trás, ou se o haviam duas luas no céu. Quem sabe os frentistas do posto não eram humanos, e sim zumbis em busca de cérebros! Para com isso, babaca. É apenas o rádio, tente de novo. Mais um giro no dial…É agora, o sorteio de um lindo kit Difusora! Ligue agora e diga A Difusora é Dez! As cinco primeiras ligações ganham uma camiseta, um adesivo e um convite-bônus para o Pagode da Clotilde, válido para o próximo sábado! E a tortura não acabava. Ah, chega! Desligou o rádio. Mais alguns minutos e estaria no destino. Podia muito bem ficar sem ouvir nada. Bocejou. Olhou atravessado para o rádio. Venha, me ligue, quero ver se pode viver sem mim…me ligue, turn me on, babe... Relutou mais um instante, tentou assoviar qualquer coisa, se concentrar no trânsito, que naquela noite se resumia em seu carro e a estrada. Os outdoors conspiravam contra ele, pareciam possuídos pela maldição do rádio automotivo: Se liga em mim, era a frase que emoldurava uma pin up deitada sobre um rádio dos anos 50, lânguida, sedutora, provocante. Quem resiste a um apelo desses? Lá vai ele de novo…”Tempo e placaarrrrrrrrr! No Estádio Chico Vargas, Atleticano 2 , Madrigal também 2.”
Madrigal? Quando era criança, isso era nome de cobertor ou colcha. Hoje nem existe mais colcha, existe? Sei lá. De repente, mais estática. Grunhidos. Gritos. Você é o escolhido, Daniel! Você é o escolhido! Sim, queremos você! A Igreja dos Pecados Mortais quer você! Hoje é o dia” Ficou sem ação. Era o Pastor Fernandes, ainda mais louco, gritando, com um coro de gritos e gemidos de apavorar os produtores de “O Exorcista”. Alguém dá sinal de luz atrás dele. Ao olhar pelo retrovisor, o pavor: Fernandes estava sentado no banco de trás com um microfone na mão, cercado por dois cães com cabeças humanas e um homem, de terno, com cabeça de cão. Ao seu lado, a pin up do outodoor se aproxima, com seus seios volumosos e lábios carnudos. E garras, no lugar das mãos. Um único golpe, um jato de sangue cobre o parabrisa ao som de “Moonlight Serenade”. Daniel, fraco e atônito, ainda consegue ver os cães pulando para lamber o vidro ensopado e o pastor a lhe sugar o pescoço antes de cair sobre o volante e tudo ficar escuro….
Três dias depois, leito do hospital.
-Você teve sorte, sr Daniel. O corte foi profundo, mas o socorro chegou rápido. Seu carro capotou em frente a uma igreja, e os populares foram rápidos no resgate.
-Populares? Igreja?
- Sim, mas agora descanse. Quando estiver melhor, pode agradecer pessoalmente ao Pastor Fernandes…
Ainda tonto com a medicação, o nome Fernandes parece que o fez acordar. Ainda teve tempo de ver a enfermeira, uma bela moça, de lábios carnudos, seios fartos e cabelos vermelhos lhe injetando a medicação na veia e sorrindo, maliciosamente.
-Gostaria de algo mais, senhor? Quem sabe uma boa música no rádio?
A cidade explodia em euforia. Metade dela, na verdade. A outra metade e mais uma pessoa não compactuavam daquele delírio. A metade azul da cidade buzinava, tremulava bandeiras, bradavam os gritos da guerra, cortando a Mauro Ramos rumo ao Coxixo´s, o bar oficial das comemorações. Estavam na elite do futebol brasileiro. Já a outra metade, calada, tentava dormir. Ou criticar. Mas era impossível ficar indiferente ao barulho dos azuis naquele noite de novembro. Enquanto os fogos enchiam de som e luz a noite de Floripa, o coração de uma pessoa estava em pedaços, destruído. Atrás da cortina, via os fogos subindo enquanto as lágrimas insistiam em descer.
Tudo começara 14 dias antes. Um processo que culminaria num anúncio de casamento. O início de uma nova vida, que seria celebrada com uma iguaria oriental: sushi. Ela adorava o prato. Não só saboreá-lo, mas curtia cada etapa do preparo, desde a escolha de cada ingrediente cuidadosamente selecionados até o momento de serví-lo naquela bandeja comprada para a ocasião. Se sentia uma tola, olhando para a mesa preparada, a decoração, as velas, o clima romântico. A música que insistia em tocar, os fogos iluminando a noite, e o vazio na alma. Um buraco gigante, a falta do chão pra pisar. Tava complicado. Mas nada indicava que a situação tomaria esse rumo. Ele, o vilão da história, dava sinais que queria uma vida em comum com a moça. Os 14 dias que antecederam ao que seria o começo de uma nova vida davam mostras que o caminho seria feito com pedrinhas de brilhante. Mas tal e qual na cantiga de roda, o anel que ele lhe dera era vidro, e quebrou. E o amor que ela tinha, não resistira a sacanagem do 14º dia. Mas até então, tudo eram flores. Ah, flores. Um belo arranjo ela recebera no segundo dia. Foi o dia em que assistiram a uma comédia romântica, antes de tomar um chopp com um casal de amigos. Foi o dia que ela comprou a alga, e ele disse que tinha visto um apartamento que era a cara deles. E o mundo era bom. E as pessoas legais. Dalmo lhe amava, tinha prazer no seu trabalho, sua família era a melhor de todas. O que mais queria da vida? Queria que chegasse aquele dia. Ah, como ela queria que chegasse aquele sábado. Aquele, marcadinho no calendário, o 14º dia. Tinha comprado até uma roupa especial. Viraria uma gueixa. Por baixo do roupão, a lingerie sexy. A roupa que comprou no 5º dia permanece na caixa. Pretendia vestí-la após o jantar, enquanto ele relaxava no sofá tomando mais uma taça de vinho. Ou saquê. Quem sabe até uma cerveja. Mas ele não mais se sentaria naquele sofá. Nem sairiam mais nas noites de sábado, nem percorreriam mais os botecos, barzinhos da moda e restaurantes como era de costume. Ela se sentia frágil, ferida, machucada. Ele resolveu trocar a noite do noivado por um churrasco com os amigos, esticando a bebedeira numa festa na casa de amigos. Uma festa temática. Detalhe:amigos dela. Ligou bêbado, voz pastosa, dizendo que tinha passado mal no churrasco e ia dormir. Mas não foi dormir. Foi pra festa. Ela nem sabe o que ele fez. Mesmo que não tenha feito nada, a imaginação fértil da cabeça de uma mulher humilhada pode elaborar um roteiro de Fellini, um folhetim de Nelson Rodrigues. Fácil.
Deve estar agarrado com alguma galinha. Fazendo promessas ao pé do ouvido. Pode estar bêbado, vomitando pelos cantos. Tomara que esteja bêbado, vomitando pelos cantos. Filho de uma puta. Cão. Quero que morra.
Ódio, um mix de pesamentos ruins, clima pesado. Enche o copo de Vodka, vai sair, caminhar, ir para uma praia, quem sabe uma boate, dar pro primeiro que aparecer. Pega um sushi, come. Coloca o resto na pia. Vai pro quarto colocar a lingerie por baixo do vestido curto. Procura o gloss que não estava na bolsa, Abre gavetas, vários cartões de visita, recibos, um cd que ela havia lhe presenteado. Enfia na bolsa, assim como o chaveiro que trouxe de Fortaleza e a foto da cabeceira, com os dois comendo lagosta no Nordeste. Rasga a foto, joga no vaso sanitário. O rosto dele sorri, boiando em meio a água, urina e alguns fios de cabelo. Ela ri da cena. Um sorriso diferente. De vingança. Ela tinha o poder. Tudo ao seu alcance. O apartamento dele, suas roupas, anotações, móveis, discos. Podia dar nó nas roupas, riscar os discos, arranhar os móveis. Colar a agenda. Ah, imaginou tanta coisa…Colar a agenda com a porra de um estranho, que fodera gostosamente sua quase-noiva. Vomitar na forminha de gelo. Começou a gostar da idéia, e rindo sozinha entornou o copo de vodca, para enchê-lo novamente. Foi fuçando nas coisas, dane-se o gloss, queria era foder a vida dele. Achou os dvds que viram juntos, um álbum de fotos que jamais vira antes. E uma arma. Calibre 38. Carregada. Ficou com receio de pegar o revólver. Nunca havia manuseado um antes. Relutou, olhou para os lados, como se alguém pudesse observá-la. Assim, cheia de cuidados, num misto de medo e excitação, pegou a arma. Mas foi decidida, empunhou firme, mão cheia na coronha. Parecia uma veterana, empunhando aquele 38 pesado. Olhou com admiração o cano, o tambor, aquela peça reluzente. Achou sexy. Foi ao banheiro sem deixar a arma de lado. Sentou no vaso e fez xixi na cara sorridente do ex-noivo, enquanto alisava o cano longo do revólver. Ia puxar a descarga, mas a foto boiando na privada a fez mudar de idéia. Ele não podia estar em lugar melhor.
Fica curtindo no mijo, seu merda.
Aquela sensação de perda, de solidão, aos poucos foi se transformando em algo que jamais sentira antes. Já não importava o noivado, o noivo, o sushi. Ela tinha uma arma. Ela tinha o poder. Estava possuída, como se aquela peça tivesse poderes, exerce uma força maligna, diabólica sobre ela. Aumentou o som do Dazaranha, ninguém se importava, os azuis estavam na série A, os foguetes estouravam na noite da Ilha, se desse um tiro no apartamento ninguém perceberia.
O poder, a mágoa, a vingança. Ela tinha algo em mente. Algo diabólico. Desceu e ficou no carro, esperando ele voltar. Antes, escreveu um bilhete, dizendo que o amava muito e, apesar de estar aborrecida, nada mudaria os planos feitos. Sentiu vontade de vomitar após ler o bilhete, mas fazia parte do plano. Depois pediu pra uma amiga ligar pra ela. Pediu para seduzi-lo. Tomou o cuidado de pedir que ligasse de um telefone público. Enquanto a amiga fez o favor, ela entrou num chat, num bate-papo. Olhou vários nicks, muitos gays querendo diversão. Puxou conversa com um transex, se passando pelo namorado, aquele que estava bêbado, sendo seduzido pela amiga e boiando no bacio em meio a agua amarelada de urina.
Você que fazer uma massagem gostosa em mim? Estou sozinho no apartamento, vem pra gente brincar…vou estar na cama, deitado, relaxando. Gosto de jogos eróticos, vou fingir estar dormindo. Faça o que quiser. Topa?
O transex topou. Chegaria em uma hora. O mesmo horário que a amiga havia combinado com ele. No mesmo local. O mesmo jogo. Era só sair e saborear a doce vingança. Mas ela queria mais. Deixou a máquinha fotográfica recem-comprada escondida no guarda roupas, modo filmagem. Segundo o vendedor, o cartão de 4 gigas garantiria uma hora e meia de imagens. Imagens que seriam colocadas na internet. Disponível para todos, em qualquer lugar do mundo. Quando a porta se abriu, ela colocou o revólver sobre o travesseiro e correu para dentro do guarda-roupa. Ele havia chegado cedo. Não era para ela ficar ali, mas não havia como sair. Bêbado, ele se jogou de bruços na cama, sem sequer tirar os sapatos. Quarenta minutos depois, chega o transex, extramamente feminina, cabelos curtos, pernas bem cuidados, pele bronzeada. Deitou-se sobre ele, passando a língua no pescoço. Ele murmurou algo e procurou a boca que roçava seu rosto. As linguas se encontraram, beijos, amassos, volúpia, sede, suor. Estava nu, o pênis flácido na boca da acompanhante, não teria uma ereção depois de tanta bebida. Mesmo assim, gemia algo, chamava a namorada que, num misto de repulsa e excitação, registrava tudo na câmera digital. Na tentativa de encontrar a cavidade no meio das pernas da garota, a surpresa: não havia o que procurava. Sua mão se enchera de uma massa rígida, que pulou para fora da calcinha, latejando.
Que merda é essa? Puta que pariu, só posso estar muito bêbado…Um viado aqui…Eu beijei a porra de um viado!
Não se faz de besta…Gosta de joguinhos, então vamos jogar, gatinho. Anda, fica de quatro…
Antes que o transex pudesse terminar a frase, Dalmo lhe dá um tapa que o derruba na cama, fazendo cair o travesseiro. A arma reluz, os fogos estouram no ar.
Filho da puta! Quer jogar? Então vamos colocar as cartas na mesa.
De arma em punho, apontou pra cabeça do assustado rapaz, que reconhecera seu revólver.
Vem, machão…põe o caralho na boca. Chupa, gatão. - exclamou, apontando o cano no ouvido de Dalmo.
Não brinca, porra…Vamos, eu te pago e você vaza. Como entrou aqui?
Chupa, porra! -gritou, dando um tapa na cara. Assustado, ele chega mais perto e vai lambendo, timidamente. Mas o gay lhe puxa os cabelos e introduz o pau boca adentro, fazendo o outro quase vomitar.
Anda, mama gostoso…Isso, chupa, machão. Embriagado, confuso, ele obedece e suga o sexo da garota de pênis. Se excita ao ver aquele rosto feminino de olhos cerrados, gemendo. Os seios fartos, a barriga perfeita…e aquele pênis latejando em sua boca. Não acreditava, mas estava gostando daquilo.
Quem também não acreditava, mas estava adorando a cena era Vanessa, filmando tudo dentro de seu esconderijo. Já não tinha mais raiva, nem ódio, nem rancor. Afinal, ele sucumbira a uma mulher de pênis, ou a um homem vestido de mulher. Estava lá, de quatro, chupando um pau. E gostando. Então o transex soltou a arma e pegou um tubo de lubrificante. Hora de foder o machão. Extasiado e bêbado, ele nem reagiu quando os dedos lambuzados invadiram seu ânus virgem. A Bastilha estava prestes a cair. A revolução estava se consumando. A vingança com V maiúsculo. De quatro, na cama, ele fecha os olhos e espera a estocada que vai preencher um espaço até então inexplorado. E num gemido, é violado com força, várias vezes, movimentos frenéticos e ininterruptos, seu pênis enrijece, ele se masturba enquanto é comido pela garota de pau. Goza rápido, sente o gozo enchendo sua retaguarda. Se arrepende, mas é tarde. Cai em si, sente nojo do gay, sente nojo de si. Vanessa abre a porta e aparece, para o golpe de misericórdia. Sem falar uma só palavra, ela sorri com o canto da boca. Seu olhar tem um brilho diferente. E encontra o olhar do ex-noivo, um olhar de derrota. De alguém completamente perdido. Arrasado. Não tinha nada a perder. Empunhou a arma, mirou na cabeça do transex e atirou. Depois enfiou o cano na boca e puxou o gatilho. Enquanto o sangue manchava o lençol branco, ela foi calmamente até a cozinha, pegou o par de hashi e colocou na cabeceira da cama, com as pontas inferiores se tocando e as superiores se afastando num ângulo de cinco graus. Um V. De Vingança. De Verdade. De Vanessa.
Pegou as chaves do carro e desceu a Mauro Ramos, em meio ao foguetório e buzinaço. Hora de celebrar com a torcida. Hora de um chopp na Beira-mar.
O relógio marcava 3:43 da manhã quando um rojão explodiu na madrugada silenciosa. Assustada, ela acordou na cama do namorado, com o revólver ao seu lado e os pauzinhos orientais do outro. Formavam um V, mas não havia corpos, nem sangue, nem vingança. Mesmo assim, se levantou e foi embora, feliz. Estava satisfeita, feliz e mudada. No décimo quinto dia seria seu marco zero.
- Oi
- Tudo bom?
- Tudo bem, e contigo?
- Ah, tudo certo. Aceita um café?
- Acho que vou aceitar, sim. Sabe, eu sempre tive curiosidade de entrar aqui, sempre achei muito bacana esse lugar. Essa arquitetura antiga, adoro esses casarões. Mas fizeram algumas mudanças, não?
- Ah, sim. Demoliram parte do prédio. Em breve esse lugar vai fechar, vão derrubar o que restou para construir outra coisa aqui. Uma pena.
- Ah, logo num lugar assim? Deviam preservar esse lugar tão bonito.
- É melhor aproveitar seu café, em breve isso tudo irá ao chão.
- Desculpe, apesar de eu te ver sempre e saber quem você é, acho que não sabe meu nome: prazer, Laura.
- Laura, bem vinda. O que faz?
- Trabalho numa floricultura, lá em Primavera. Hum, esse café ta uma delícia. Sabe, eu sempre admirei seu trabalho. Tenho dois livros seus, sabia?
- Olha só, uma fã! Fico feliz, Laura. Meu ego vai lá no alto. Estou trabalhando no terceiro livro, que tem muito a ver com esse casarão. Fui praticamente criado aqui, meus avós construíram essa casa. Muitas lembranças, boas e más, uma vida inteira que em breve vai ao chão. Inevitável a melancolia, Laura. Por isso aproveito para escrever as últimas linhas aqui, tomando café enquanto ainda é tempo.
- Mesmo? Também curto essa coisa de saudade, sabe? Até a palavra melancolia soa bem, tem uma sonoridade tão boa.
- Confesso que fico um tanto surpreso com essa revelação, Laura. Essa coisa de saudade, lamentos, arrependimentos e afins combina mais com caras da minha geração. Você deve ter uns…dezesseis?
- É, mais ou menos isso. E o que isso tem a ver? Sensibilidade, emoção, sentimentos são cronológicos? Estou um tanto surpresa com o seu comentário, meu caro escritor.
- Tem razão. É que, ultimamente, é tão raro encontrar alguém assim.
- Assim?
- É. É que fui pego de surpresa. Nunca nenhuma outra pessoa me abordou numa mesa de café e falando sobre meus livros, sobre meus textos, afagando meu ego e…
- Sabe, você é realmente o que escreve. Dá pra saber tudo sobre você, sabia? Aliás, nem precisa escrever. Teu corpo fala por ti. Agora mesmo, não consegue me olhar nos olhos, desvia o olhar, coça a cabeça. E acabou de ficar vermelho.
- Câncer. Meus avós morreram de câncer.
- Pode mudar de assunto, mas sei o que quer agora é meu beijo.
- Tem mesmo dezesseis?
- Dezenove.
- Vamos sair daqui.
